/ Três Corações

Roteiro de criação de uma radionovela em software livre

Publiquei no fim da semana passada, depois de meses de redação, produção e edição, o primeiro capítulo da radionovela Arraial dos Coelhos, uma minissérie de ficção em áudio que chega aos ouvintes via podcast. Compartilho agora alguns dos detalhes de making of, tanto para passar o conhecimento adiante como para girar a prática de produção colaborativa.

A ideia de gravar uma radionovela nasceu a partir da conquista, pela Viraminas, do Prêmio Pontos de Mídia Livre, um edital que voltou à pauta do MinC há dois anos, reintegrando o leque de fomento da Política Nacional de Cultura Viva. Nossa premiação veio com duas iniciativas: a revista Ora!, que teve nove edições já publicadas e que traz entrevistas de memória oral com personagens do cotidiano, e o programa de rádio Idearia, veiculado recentemente na rádio Tropical como um quadro de cinco minutos dentro do programa Cidade em Revista.

Optamos, com o recurso do prêmio, em investir na experimentação de linguagem para usar todo o potencial do nosso estúdio, montado entre indas e vindas para gravação de músicas e programas de rádio em geral. Como usamos 100% de softwares livres em nosso fluxo de produção, decidimos investigar as potencialidades que estes aplicativos oferecem. Ao invés de um quadro semanal de cinco minutos, optamos pela gravação de programas de uma hora, com diversos quadros, sendo a radionovela o último deles.

Edição da radionovela Arraial dos Coelhos no software Ardour. Foto: Ronildo Prudente (Viraminas)

A produção não foi simples e mostrou o quanto é complexa a produção radiofônica, em especial numa rotina fora de uma emissora, onde nós profissionais temos que lidar com tudo, desde a faxina à prestação de contas financeira, passando, obviamente, pela criação artística em si. Como houve uma mudança de sede no meio do caminho, o cronograma sofreu uma série de prorrogações e, por fim, decidimos explorar a linguagem do podcast, lançando a radionovela na internet antecipadamente ao rádio tradicional.

A experiência foi fundamental para aprender uma série de recursos novos e colocar a criatividade pra funcionar. O primeiro passo para desenvolver um fluxo produtivo da radionovela foi pensar num roteiro. Como ninguém nunca tinha sequer lido um roteiro do gênero, recorri aos programas de roteiro para cinema. Encontrei primeiro o Trelby, um simpático e simples aplicativo que traz facilidades para a redação e ainda agrega alguns outros elementos como relatórios de personagens, em que o autor sabe quantas falas cada um tem e quantas vezes interagem entre si.

No entanto, com a mudança de sede, mudei também o computador onde estava editando o texto, e veio a surpresa, pois no Debian 8 encontrei sérias dificuldades em instalar o Trelby. Descobri que o programa foi descontinuado em 2012 e que, por isso, depende de bibliotecas de python atualmente indisponíveis nesta distribuição do Linux.

Desde então pesquisei e vim baixando uma série de aplicativos semelhantes, sendo que nenhum deles tinha a simplicidade do Trelby. A solução veio então quando encontro o Fountain, que, na verdade, não é um aplicativo, mas sim uma linguagem, ou uma sintaxe para escrita de roteiros. Baseada no formato Markdown, o Fountain é um conjunto de regras para você escrever um roteiro completo em qualquer editor de texto, até mesmo do mais simplório bloco de notas.

A ideia do Foutain, assim como de outras linguagens como o Markdown, é centrar o foco no conteúdo, deixando de lado algumas distrações que editores de texto como Word ou mesmo o Final Draft (especializado em roteiro) colocam à frente do digitador. Por isso é uma linguagem de texto puro: basta seguir algumas regrinhas e você terá um roteiro formatado automaticamente. Como exemplo, vou colar aqui um trecho do roteiro de Arraial dos Coelhos:

>CAPÍTULO NOVE<

.NARRAÇÃO

NARRADOR
No capítulo anterior, Euclides aproveita a ausência de Padre Tomé para reiniciar o ritual de purificação com Dona Santinha. Capitão Furtado arma uma emboscada para Bolão e o obriga a mudar as apostas ou fechar a banca de jogatina. Enquanto isso, os preparativos para a festa do padroeiro estão na reta final.

.IGREJA

Zíper se abrindo.

EUCLIDES
Dona Santinha, está pronta para a parte mais importante de nosso ritual? Saiba que vamos entrar em um território desconhecido!

SANTINHA
Estou mais do que pronta... ai, padre!

EUCLIDES
Sentes a entrada do perdão?

SANTINHA
Sim! Nunca pensei que confessar seria tão reconfortante!

Digitado desta maneira, o arquivo pode ser exportado com o uso de um parser, um programa que faz a transição entre o texto puro e o PDF formatado, lindo de se ver. Pode parecer trabalhoso, mas essa transição precisa ser feita (necessariamente) apenas uma vez, após terminado o trabalho de redação e revisão do texto original. O parser cuida de todos os detalhes, como numeração de página, alinhamento de parágrafos, números das cenas etc. São exemplos de parsers editores de texto como o atom e o aplicativo de linha de comando pandoc. Meu parser preferido é o 'afterwriting, um javascript simplão que roda dentro do navegador e que pode ser baixado para rodar localmente, sem conexão à internet. Escrevi todo o texto no gedit e gerei o pdf no afterwriting. O trecho mostrado acima, na versão final, em PDF, fica assim:

Com este roteiro em mãos -- levou meses para chegar à versão final, registre-se --, a gravação teve início com a participação de um elenco sensacional, que envolveu um grupo misto entre atores profissionais e amadores, todos com alguma passagem pelos palcos. Houve um estranhamento, no princípio, quando propus que as falas fossem gravadas separadamente, ou seja, cada um gravaria suas partes nos diálogos sem a presença dos outros atores. Após as primeiras edições, porém, ficou constatado que esta era mesmo a opção mais ágil e cujo resultado passa despercebido pelo ouvinte.

Paulo Morais em gravação da radionovela Arraial dos Coelhos, no estúdio da Viraminas. Foto: Ronildo Prudente

Todos os diálogos foram gravados no Ardour um software do tipo Digital Audio Workstation (DAW), ou Estação de Trabalho de Áudio Digital, um programa completo, versátil, leve e 100% código aberto, que permite a instalação de uma série de plugins como compressores e equalizadores. O Ardour pode ser usado tranquilamente para a produção musical sem deixar nada a desejar aos concorrentes proprietários que a molecada pirateia em seus home studios.

Como trilha sonora, adotei as canções de Ernesto Nazareth, grande sambista dos primórdios da música brasileira, cujas composições entraram em domínio público nesta década. O detalhe é que o uso do conteúdo foi possível apenas graças ao trabalho formidável do Instituto Moreira Salles, que disponibiliza toda a obra do mestre para os ouvintes. Tomei o cuidado de pesquisar aquelas gravações bem do início da carreira, como Armeno Rosedá e Apanhei-te Cavaquinho, em cujos registros, de fato, não incidem direitos autorais.

Para efeitos sonoros, usei a biblioteca do freesound, que tem uma vastíssima coletânea colaborativa de pequenos barulhos como passarinhos, liquidificador, porta, sino de igreja e acordes para sustos e transições. O roteiro indicava todos os efeitos que eu precisava, baixei todos, renomeei para nomenclaturas amigáveis e salvei tudo numa pasta, que acessei à medida em que a edição pedia. Naturalmente, alguns improvisos ficaram por conta do nosso editor, Luciano Utta, que por sua conta incorporou algumas intervenções como cachorros latindo e crianças brincando.

O resultado é o que vocês podem ouvir acessando a home do podcast ou ainda procurando por Arraial dos Coelhos nos aplicativos disponíveis (no momento em que escrevo este post, estava disponível no player.fm, para Android. Para publicação, adotei o script PHP Podcast Generator, um aplicativo baseado no Bootstrap que cria uma página responsiva para o podcast e ainda gera o feed para os agregadores.

É isso. A aventura vale, acima de tudo, pelo conhecimento gerado. Salve o software livre, salve a criatividade, salve a nova era do rádio.

PS: estou revisando, pela última vez, o roteiro completo da radionovela, e disponibilizarei-o para download no formato fountain, para curiosos e pesquisadores.

Paulo Morais

Paulo Morais

Jornalista, mestre em Gestão Pública e militante da rede de Pontos de Cultura de Minas Gerais. Fundador da Viraminas Associação Cultural e do projeto Museu da Oralidade, de Três Corações (MG).

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