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Elaborando projetos culturais #1: o conceito

Inicio hoje uma série de posts que venho querendo escrever há muito tempo sobre projetos culturais, indicando como pensar, organizar e redigir propostas para viabilizar ideias. Estas postagens vem resolver duas questões: a primeira, organizar a forma como penso a elaboração dos projetos, facilitando os cursos e oficinas que organizo sobre o tema; a segunda, é para compartilhar o conhecimento e tentar colaborar com os pares que também querem trabalhar na cultura.

As ideias que aqui compartilho são resultados de dez anos de trabalho na concepção, elaboração e execução de projetos desta natureza. Vem também de alguns cursos e oficinas dos quais participei e também de algumas leituras que busquei para me especializar. Diante da trajetória, posso dizer tranquilamente -- e este é um primeiro ponto que trago aqui -- que cada realizador deve construir sua carreira dentro de uma lógica própria, mesclando valores e premissas individuais com ideias e conceitos apreendidos a partir do contato com outras realidades. Não existe fórmula universal ou receita única que sirva a todas as iniciativas.

O que é um projeto cultural

Em muitas oficinas que realizei sobre o tema, os profissionais ou aspirantes presentes buscavam conhecer as palavras mágicas que fazem determinado projeto ser aprovado nos diversos editais, como se isso existisse. É claro que não é assim que os sistemas funcionam: os projetos dependem muito mais autenticidade e originalidade do que de discursos floreados. Achar que a aprovação de um projeto em algum mecanismo de financiamento depende simplesmente de se escrever bonito é meio caminho andado para a prolixidade -- e isso nos leva precisamente ao caminho oposto do que estamos buscando.

Quando recorremos a mecanismos de financiamento, tais como editais públicos ou privados e leis de incentivo à cultura, é porque geralmente temos um sonho a ser realizado. A publicação de um livro ou de um álbum de música autoral, a circulação do grupo de dança, a realização de um curta-metragem etc. Na Viraminas sempre tivemos como lema a ideia de que é proibido passar vontade. Por isso buscamos sempre direcionar nossos projetos àquilo que nos move, que nos realiza artisticamente, que tira de nós toda nossa potencialidade criativa. Essa é uma premissa que deve sempre ser respeitada: qualquer projeto deve respeitar suas vontades, estar afinado com aquilo que você quer fazer. Por mais que, na hora de conceituar os projetos em que você trabalhará, você deva levar em consideração o contexto em que está envolvido -- aprofundarei mais neste assunto adiante --, nada pode superar aquilo que sua intuição lhe pede para fazer. Não vá abrir mão de um projeto só porque você acha que outro assunto está mais na moda ou agradará mais a patrocinadores, analistas ou ao governo. Não é para isso que existem os mecanismos de financiamento.

Dito isso, há que se pensar: o que é um projeto? Há uns 10 anos, nas primeiras oficinas de elaboração de projetos das quais participei, vi essa frase simples que desqualifica o discurso de muitos dos pares com os quais convivo: ideia não é projeto. Muitos colegas nossos dizem que tem projeto disso, projeto daquilo, quando na verdade o que tem são apenas ideias soltas, mal e porcamente formuladas, e que justamente pelo fato de não estarem articuladas nunca saem do papel. É atribuída a um texto da ONU (ainda busco a fonte original) a seguinte definição:

Projeto é um empreendimento planejado que consiste num conjunto de atividades inter-relacionadas e coordenadas, com o fim de alcançar objetivos específicos dentro dos limites de tempo e de orçamento dados.

Para complementar a definição, podemos definir o que é projeto cultural. Cultura é um termo amplo, e que por isso mesmo abre margem para uma série de especulações e dúvidas. A ideia de projeto cultural é maior que projeto artístico. Não se resume, portanto, à criação de produtos como os citados acima. A cultura envolve costumes, hábitos, tradições, saberes, fazeres e formas de expressão diante dos quais nos identificamos. A amplitude do termo, no entanto, não pode nos levar a crer que cultura é tudo.

Projetos culturais, para serem bem-sucedidos, devem se contextualizar dentro do que se propõe uma política cultural. Esta, por sua vez, não é exclusividade do governo: empresas e organizações privadas também podem ter suas próprias políticas culturais, que consistem em uma série de intervenções na comunidade para buscar a transformação social, o desenvolvimento simbólico e para satisfazer as necessidades culturais da população.

Dissecando um pouco o conceito: a sociedade, por sua dinâmica própria, não é capaz de gerar produção simbólica suficiente para dar conta da diversidade e da potencialidade humanas. Na nossa sociedade capitalista de mercado, por exemplo, há concentração dos meios de comunicação e tentativas, bancadas pela força do capital, de uniformização do comportamento para que hábitos e costumes favoreçam ainda mais a concentração do capital. Dar voz às minorias, estimular a criatividade, fortalecer a polifonia, a memória social e a diversidade são premissas razoáveis para uma política cultural dentro desse contexto. Há muitos argumentos falaciosos que atacam políticas culturais mais incisivas sob o argumento de que são intervencionistas, autoritárias etc; quando na verdade elas devem ser exatamente o contrário. Isto pode até existir em alguns contextos, mas geralmente tais argumentos são intencionalmente propagados para se desbancar tentativas de criação de políticas inovadoras, participativas e inclusivas, pois sem elas o mundo pode ficar do jeitinho que está que ninguém será incomodado.

Na concepção de um projeto cultural, não se pode abrir mão de conhecer as políticas culturais para saber o que está em jogo. As políticas refletem anseios, aspirações e desejos coletivos. São geralmente arquitetadas a partir de diálogos e de processos participativos -- caso contrário não são políticas propriamente públicas. Existem muitos obstáculos na implantação de uma política pública de cultura -- ingerências e disputas partidárias, corporativas ou sectárias, por exemplo, podem inviabilizar. Por isso, é fundamental que agentes culturais -- aqueles que vão elaborar e executar os projetos -- sejam ativos na cobrança por políticas mais transparentes, abertas, e democráticas. Fazer parte de conselhos, cobrar a realização de conferências e de prestações de contas de governantes é uma das ações que devem ser incorporadas ao repertório dos agentes. Cobrar a responsabilidade social das empresas e a participação da comunidade também faz parte. Como se vê, o trabalho é árduo, mas gratificante.

Conclusão

Como dito anteriormente, projetos culturais devem ser a expressão da individualidade e das vontades de seu autor, porém precisam ainda se enquadrar no contexto mais atual do que se tem de política cultural. Nos próximos posts, caminharei para mostrar passos mais pontuais de elaboração de um projeto cultural (orçamentos, cronogramas, justificativas, mecanismos de financiamento etc), mas podemos deixar algumas questões objetivas que são importantes para quem chegou até este post:

  1. Não diga que você tem projetos caso aquilo que você tenha sejam ideias.
  2. Parta do que você tem vontade de fazer. Não comece de cara pelo que você acha que outros vão valorizar. O ponto de partida é aquilo que você valoriza.
  3. Esqueça a ideia de que palavras mágicas podem fazer seu projeto cair nas graças de um analista. Conhecer tudo o que estiver ao seu alcance sobre o tema que você trabalhará vai dispensar todo tipo de sofisma.
  4. Conheça o contexto social e político em que sua iniciativa está inserida. Participe, no mínimo, de uns 15 seminários, encontros, e fóruns sobre os temas de seu interesse para tomar pé do que está acontecendo. Eventos como esses acontecem o tempo todo, são muitas vezes gratuitos e recheados de excelentes diálogos. Habitue-se a procurá-los no Google, cadastre-se em listas de e-mails e grupos de discussão em redes sociais e fique sabendo das agendas.
  5. Conheça outras iniciativas semelhantes. Saiba o que pensam gestores de iniciativas semelhantes à que você pretende realizar. Leia livros, busque sites que retratem experiências, mande e-mails e, sobretudo, visite locais, organizações e projetos que lhe interessem.
  6. Participe de esferas de participação: conselhos de cultura, conferências, audiências públicas. Além de servirem como espaços de aprendizado, servem para cobrar políticas públicas mais justas para a área da cultura.
Paulo Morais

Paulo Morais

Jornalista, mestre em Gestão Pública e militante da rede de Pontos de Cultura de Minas Gerais. Fundador da Viraminas Associação Cultural e do projeto Museu da Oralidade, de Três Corações (MG).

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