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Edição de áudio em software aberto

O projeto Museu da Oralidade: estúdio móvel caminha para a fase de gravação do vídeo, para tanto estamos em fase final da mixagem das vozes captadas nos últimos dois meses. São onze vozes ao todo, oito mulheres e três homens, que entoaram os versos da canção Vissungo, de autoria de Ronildo Prudente.

A gravação das vozes foi feita parte em um notebook não muito novo, de 4GB de memória RAM, com o uso de uma interface Steinberg UR2, de dois canais, e um condenser MXL. A outra parte foi em uma ilha de edição do Canaviá Estúdio, da Viraminas. Os equipamentos tem custo relativamente baixo, que entretanto permitem uma excelente mobilidade e qualidade de áudio.

Estamos usando também apenas softwares de código aberto, o que de certa forma minimiza o consumo de memória do computador. Usamos Linux Debian com o programa Ardour. Não sou um grande especialista em estúdio de música, sequer sou músico, apenas coordeno o projeto. Também tenho consciência de que a discussão sobre qual sistema ou programa usar é um tanto inócua, não leva a muito lugar. Cada um faz sua trajetória com base naquilo que acredita e com as informações que tem. Entretanto, não tenho dúvidas de que, no nosso caso, a opção pelo código aberto traz muito mais vantagens do que desvantagens, pelos motivos que explico.

Em contraponto ao que vários colegas do meio costumam dizer, o Ardour apresenta uma variedade de recursos e plugins plenamente satisfatória. Além disso, o fato de ser de código aberto permite que o instalemos sem nenhum tipo de armadilha, como cracks, keygens e frescuras congêneres. Só como exemplo, quando comecei a usá-lo nas primeiras oficinas do Ponto de Cultura, há alguns anos, o Ardour estava em sua versão 3. Migramos para a 4 e, há poucos meses, para a versão 5. Em nenhum momento tivemos que comprar novas licenças ou usar de maracutaias para destravar atualizações. Isso por si só é um benefício que não pode ser negligenciado.

Outra questão relativa às atualizações está na transparência com que os updates de programas abertos são tratados. Em plataformas como o GitHub, os desenvolvedores reconhecem demandas dos usuários, anunciam metas para cumprir, colocam prazos e promovem lançamentos de novas versões conforme os pedidos são resolvidos. Na indústria tradicional do software, muito embora haja atendimento aos pleitos dos usuários finais, não há garantia de que novas soluções sejam disponibilizadas assim que desenvolvidas, uma vez que as empresas tem na obsolescência programada uma das suas fontes de lucro.

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Além disso, é muito tranquilo afirmar que o Ardour rodando sobre Linux tem uma estabilidade invejável, que pouco provavelmente teríamos em um computador antigo como o meu rodando programas recém-lançados. O Debian é um sistema que abre mão das novidades da última semana em prol da robustez do sistema. Isso quer dizer que o usuário que opta por este sistema abre mão de alguns meses de atraso em relação às novidades do mercado de software em troca de menos travamentos e surpresas desagradáveis.

Não nego, entretanto, que, muito embora recomende a migração para os sistemas e aplicativos de código aberto sempre que possível, o usuário leva um tempo para se acostumar com a plataforma Linux. A escolha da distribuição ideal requer uma sequência de tentativas e erros. A troca do sistema de instalação de programas do Windows, em que o usuário se vira para achar o software desejado vasculhando nos sites dos desenvolvedores, pelo sistema de pacotes do Linux, causa estranhamento, mesmo sendo o Linux muito mais favorável ao usuário.

Enfim, estas são apenas algumas opiniões com base em alguns anos de aprendizado com a produção artística em software livre. Há muito ainda a contribuir, mas o acúmulo de conhecimento dos últimos projetos com audiovisual e música mostram o imenso potencial do código aberto para artistas e produtores.

Paulo Morais

Paulo Morais

Jornalista, mestre em Gestão Pública e militante da rede de Pontos de Cultura de Minas Gerais. Fundador da Viraminas Associação Cultural e do projeto Museu da Oralidade, de Três Corações (MG).

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