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Cambuquira e Uberlândia: A tela convida à reflexão

Duas mostras audiovisuais nos últimos dois fins de semana: a Mosca, em Cambuquira, em sua décima primeira edição, com o repertório já conhecido de filmes de tudo quanto é canto do mundo; e a Mostra de Cinema Casa Aberta, de Uberlândia, que reuniu produtores locais. A presença nos dois eventos faz lembrar o quanto é rica, diversa, engajada e vibrante a produção audiovisual deste momento que a gente vive. Seja no plano local, seja em escala global, vemos os cineastas buscando, em cada lugar e em com seu jeito peculiar, encontrar alternativas ou provocar questionamentos sobre esse mundo maluco e essa sensação de que o apocalipse pode acontecer já na semana que vem.

Abertura MOSCA 11 - Mostra Brasil: Sessão Cambuquira. 19/07/2017

Nos corredores do Sinhá Prado, em Cambuquira, e nos debates pós-sessões, a conversa, que não era pra boi dormir, dava o tom do que representa a mostra. A sensação é que estamos diante da talvez mais emblemática exibição audiovisual do Brasil, pela quantidade de fatores envolvidos: o florescimento de uma improvável cadeia produtiva numa cidade com menos 20 mil habitantes, a conexão do público com as inquietações mostradas na tela, a inaptidão da Mosca para ser um circuito fechado a cineastas, a essência do cinema num evento sem tapete vermelho, o charme da cidade que outrora fora badalada e que agora reclama inspiração para olhar à frente. Poderia elencar várias outras qualidades, mas tietagem tem limite. Parabéns à Vanessa Manes, diretora do filme sobre Dona Roxinha (emblemática rezadeira da cidade), que foi vencedor da Mostra Brasil.

Em Uberlândia, foi a primeira iniciativa do gênero comandada pelos amigos da Trupe de Truões (com direito a fachada nova da sede), grupo de teatro que aos poucos vai expandindo o envolvimento com outras linguagens. Na primeira edição, autores locais apresentaram suas obras e se reuniram para conversar entre si e com o público. Não houve restrições quanto a formato, técnicas ou gêneros, e isso abriu um belo panorama para o público.

Destaco primeiro dois filmes geniais do diretor Carlos Segundo: Balança Brasil e Ainda Sangro por Dentro. O primeiro, um documentário com doses de ficção gravado em Porto Seguro do qual não se entende nada mas dá pra entender tudo. O segundo, uma ficção densa, psicológica, com uma protagonista calculista que vive um drama pessoal. É espetacular.

A webserie Da Pá Virada (produzida por Raíssa Dantas com direção de diversos colaboradores -- veja poster de Aláfia, um dos curtas do seriado) traz narrativas da cidade: um grupo de jornalistas que retrata situações do cotidiano de Uberlândia a partir das narrativas de pessoas comuns, que mostram pequenas lutas contra injustiças diante das quais geralmente adotamos uma postura blasée. É de longe o material com o qual mais me identifiquei -- embora não seja um primor estético, é genuíno em todas as falas e imagens, desperta o interesse sobre as pessoas e a cidade, circula por cantos diferentes e desesconde os dramas ocultos da convivência urbana. Vida longa a este projeto.

Paulo Morais

Paulo Morais

Jornalista, mestre em Gestão Pública e militante da rede de Pontos de Cultura de Minas Gerais. Fundador da Viraminas Associação Cultural e do projeto Museu da Oralidade, de Três Corações (MG).

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